terça-feira, 20 de julho de 2010

Alerta de Mensagem



Tive um W810. Fui à loja e depositei os dois olhos no balcão pela barrinha. Parcelei a paciência em seis vezes. Um telefone padrão. Igual a todos os outros aos olhos dos outros. Pra mim, era o começo de uma história louca. Lembro que ainda ganhei o número da atendente para usar os vários minutos ganhos. Uma liquidação bem charmosa. Perdi o número antes de abrir o pacote.
O telefone podia ser padrão, mas, sem dúvida, era funcional: ele me fazia funcionar. Penei alguns dias para descobrir suas artimanhas. Tive que dar um pouco de suor para entender os tópicos, descobrir os atalhos, reconhecer quando cantava em uma chamada. Tive que dedicar algumas cartas às letras. Quanto mais descobria, mais a paixão atravessava a sala.
Foi meu melhor amigo nas conversas nos ônibus. Emudecia o mundo com uma música do One Republic. Tocou a melhor música quando eu menos precisava. Fez os ouvidos dançarem ao som de um piano. Conheceu mais os meus amigos do que a minha memória podia lembrar. Lembrou-me de todas as consultas ao dentista.
No café, ele me vigiava. Postergava minhas dores. Proporcionou-me horas de conversas pela madrugada. Trouxe-me uma saudade latente, uma imagem que revolucionava o rosto. Era a emoção em forma de botões. A bateria mais parecia esperança: durava até depois do último segundo. Só morria depois que desligava o coração. Era meu cúmplice. Chorou comigo. Sorriu com o outro. Era o meu socorro mais próximo quando batia saudade de alguém. Era o caminho mais curto à outra voz. Vestiu-me de outro corpo, devolveu-me um pouco de felicidade.
Foi com ele que eu disse: “eu te amo”. Uma mensagem alertando da novidade. Um outubro de declaração. Um natal apaixonado e meu coração já não era mais meu. Ele me trouxe um amor. Um amor imenso que nao cabia no peito.
Hoje tenho outro telefone. Ele pode ser tudo, menos funcional. Ele é mais bonitão, robusto, (in)sensível às coisas, tem um montante de vontades e parafernálias, mas não me intriga. É um telefone diplomado, mas, mesmo assim, não me intriga. Não me desafia. Não me ousa. É muito adulto para um pequeno coração. Nem sabe brincar.
Deixa-me a desejar. Não me conquistou, até hoje. Tanto espaço para música que não cabe no bolso. Preciso me repetir para conhecê-lo por completo. Atualizar o tato para reconhecer os olhos.
Amor não pede atualização. Existe apenas uma versão de amor. Vários tipos de amor é paixão. Amar é uma funcionalidade. Ir descobrir o que te intriga, o que te consome. Passar horas descobrindo que amanhã tem mais para se descobrir. Amar é o exato espaço entre a sala e a cozinha. Mais que isso, já é distância.
Continuo a vida. Sem ele. Uma saudadezinha de ligar para saber como ele anda...
Aquela barrinha tinha nome e sobrenome.
Leandro Lima

4 comentários:

Amanda Guimarães disse...

UAU!
LINDO!
rsrs Adorei como conseguiu dar uma importancia maravilhosa para aum objeto que todos temos, mas não passa de um objeto.
Lindo. Parabéns!

disse...

Muito bom! adorei!
Abraços

Clariinha Santana disse...

Nossa... Cheguei a ficar com inveja do celular :)Texto maravilhoso, parabéns!

beeijos

keith disse...

Adorei...como queria ser esse objeto tão importante..Lê muito lindoo.Parabens