quarta-feira, 9 de junho de 2010

Amor de Plástico



E chove. Não lá fora, mas aqui dentro. Chovem os olhos, de dentro para fora. 
Você não foi covarde, você foi um cúmplice sem piedade ao ato. Você foi perfeitamente o que quis dizer, sem nenhuma palavra a mais ou a menos. Sem nenhuma lágrima ou remorsos você olhou para trás. Suportou a faca no peito com orgulho. A medida exata do esquecimento. Você não se transbordou do corpo.
Você me encantou pelo jeito como se vestia das palavras, pelo jeito destrambelhado de dirigir, pelo jeito quase doce de falar ao telefone. O jeito como me mostrou o sorriso. Você tinha sorrisos no bolso. Podia faltar balinhas na sua bolsa, mas nunca um sorriso.
Por todos esses motivos você não foi covarde. Você superou tudo sem olhar para o telefone. Você foi forte. Firme. O contrário de mim. Não morreu na vontade de me procurar. Não ligou chorando dizendo que precisava me ver às três da manhã. Fui uma digestão rápida. Não procurou as amigas para lamentar a perda. Não fez escândalo com o travesseiro antes de dormir. Não me amaldiçoou pela traição - antes houvesse a traição, talvez tivesse sido diferente. Não mandou mensagens de saudade. Não ligou por engano fingindo ligar para um amigo. Não procurou saber, dos nossos amigos, como andavam meus projetos.
Fui esquecido, largado no canto como uma meia velha. Encardido de desprezo e ressentimento. Você ficou na mais pura indiferença depois de toda a doação. Esperei setembro, esperei novembro, não ligou no natal, muito menos no primeiro dia do ano para saber como estava o meu céu. Morri melhor em Janeiro, esperei a única ligação que não veio. Fiz aniversário na frente do telefone que ria da minha cara sem parar. Você fez de mim um morto-vivo: enterrado sem gritos, sem desespero, sem socos no caixão. Morri bem longe, mesmo permanecendo perto.
Eu fui covarde, continuei na covardia de não abandonar o que não prestava mais, o que não servia mais. Não aceitei a morte por inteira, recusei ser recusado sem a reconsulta.
Provei o que de melhor você tinha e não fiz questão da mudança. Você mudou há muito tempo, só o céu permanece o mesmo. Preciso de uma Catarse para me regenerar. Você nunca mudou dentro do meu coração. Vive confortável e embalada para todas as minhas viagens, vai comigo para onde for. Você é a minha tatuagem de dragão no braço esquerdo: veio na mesma hora, vai permanecer em mim até o último minuto do jogo. Você se remexe, mas não enlouquece por dentro. Cirurgia? Terapia? Alguma coisa dá jeito?
Loucura a minha de ainda não ter te largado no meio da rua, ou ter te deixado em qualquer esquina para morrer sozinha, ou ter te deixado morrer afogada nas lembranças de uma vez por todas. Mas lembranças não matam sentimentos, só fazem revisitá-los. 
Sou covarde. Um convarde com o maior Amor do mundo. E o que fazer?
Amor falso, falso amor, amor de plástico, amor de vidro, de mentira, de covardia, de... sei lá! Chame do que quiser. Você sempre vem adjetivada, nunca vem sozinha. Pura. Neutra. Nunca veio me tentar de novo. Você nunca veio, já cansei  (acho que você também) de dizer, de lembrar, de marcar na pele a frustração, de rasgar o verbo, de espremer as palavras para tentar te expressar. Você não tem final?
Um brinquedo que não quebra, uma chuva que não passa, um sono que não acorda. É aquela exata linha do horizonte no mar que não se sabe onde começa e quando vai acabar...
Mas, como todo brinquedo, daqui a pouco quebra e vai parar na gaveta.