quarta-feira, 29 de julho de 2009

"Eu não te amo mais"


EU NÃO TE AMO MAIS
Fabrício Carpinejar

Já me observei pecando. Eu digo "Eu te amo" para me despedir. Bem rápido. Como um tchau. Teamo!
O beijo não adiantou, e o teamo funciona para encerrar educadamente a conversa. Convenção de troca de parágrafo e de atividade. Vê se você não faz o mesmo?

Afora a declaração apressada, há aquela que expressa arrogância: "apesar de tudo, eu te amo". Quem afirma se mostra compreensivo e põe o outro numa situação inferior. "Apesar de tudo" é desculpar, sem esquecer o que aconteceu.

"Te amo demais" tenho até medo. Parece que não é com a gente.

O que lamento e poderia mandar para o sacrifício é o "Eu não te amo mais". Incorrigível. É o avesso do amor. Agride mais do que "Não te amo".

Não te amo é uma passagem de volta. Viramos as costas e seguimos em frente. Dói, mas não sangra.

"Eu não te amo mais" é uma passagem de ida e volta. Sinaliza que um dia você foi amado. Traz a história da relação para o centro da conversa. Esfrega a memória em tua boca. Sinaliza que o teu amor não foi suficiente. É um aviso de que está sendo rebaixado, não demitido.

Não é um furto, que ninguém sabe como aconteceu, é um assalto, que todos viram, menos você.

"Eu não te amo mais" é descobrir o câncer tarde demais. É receber uma faca no peito e girar o cabo para melhor acomodar a lâmina entre os ossos. Aquela mesma mulher que amou não é mais capaz de amá-lo. Você chegou ao ponto máximo sem ter percebido. Você chegou a sua decadência. É conhecer o fracasso sem nenhuma preparação para reagir. Deveria aparecer um comercial nos momentos decisivos em nossa vida.

Você não tem como recuperar partes que deixou com ela. Você não tem como se arrepender - ela refletiu antes de dizer, ela ensaiou antes de falar contigo, você não, você está pasmo com a notícia de que sua relação já não existe quando programava o final de semana. Resmunga tudo bem. Qualquer reação será de conformação, como se não fosse importante. O desespero virá depois. Não se é inteligente diante da dor.

Você desiste de comentar que comprou dois ingressos para o show do Chico Buarque. Os bilhetes se tornam cheques sem fundo. Você não acompanhará o resto da história dela.

Você se vê duplamente traído: por ser o último a ser informado e porque viver junto não a convenceu do contrário. Se você tivesse sido omisso, indiferente, desatento nas últimas semanas, estaria explicado o motivo do término. Teria alguma culpa para expiar. Mas você se mostrou amoroso e pontual, dedicado e atento. Explica, vai, explica?

Terminou apenas. Ela cansou de você, como se cansa de um doce, de uma roupa, de uma música, de um livro. O amor dela fez as malas e o seu estava arrumando o armário. O amor dela botou roupa de festa e o seu suspirava com bermudas e chinelos.

Possível voltar atrás com "Não te amo". Não há como desmentir "Eu não te amo mais". Dissuadir, reverter o quadro.

"Eu não te amo mais" é uma forma ainda de dizer "eu te amo". Mas no passado. O problema não é o futuro dos dois que terminou por decisão de um, é que o passado também foi embora.

"Eu não te amo mais" é "tentei, não consegui". Ainda houve um esforço da parte dela para amar.


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