sexta-feira, 8 de outubro de 2010

AINDA É MESMO QUANDO JÁ FOI

Fabrício Carpinejar


O amor não morre de pé. O amor morre deitado para confundir os cabelos e ousar de novo. Toda separação é um laço. Todo divórcio é um vínculo. Conheço gente que se separa só para se aproximar de outro jeito. Para provocar, para atrair a atenção, para pedir o retorno. Não há ofensa que não tenha uma carícia em seu início.

Fazer as malas é a última tentativa. Fazer as malas é preservar o armário. A mala pode ser o túmulo do armário ou uma outra cama de casal. Na mala, as roupas enfim se deitam,  se amam, se roçam, sem a proteção e o biombo dos cabides. As mangas entram com malícia em bolsos, os botões abertos são brincos, o zíper é uma gargantilha, camisas experimentam gravatas, calças andam com uma única perna. 

O amor não se resolve sozinho, não é de onde nasceu. O amor é natural de onde morreu. O sofrimento é o contrário: morre onde foi parido. Morre sem trocar de cidade.

Mesmo que seja maltratado, estiolado, reduzido a pó, o amor volta, se regenera com facilidade. O amor tem pele de sobra nos olhos. No amor, a pele é córnea. Quem ama não é capaz de morrer por um amor, é capaz de voltar a viver por um amor. O amor perdoa o que Deus condenaria, o amor condena o que Deus perdoaria. O amor é imprevisível. Não tem lógica. Torna a presença imaginada ou torna a ausência real. O amor cria sua própria necessidade. O amor não é uma obrigação, é uma opção. Não se é obrigado a amar, até é possível viver uma vida sem amor, mas não é possível viver o amor sem dar a vida em troca. O amor é se encostar para dormir e ficar ainda mais acordado.

O amor ilude, contraria, engana.  É instável e machuca, abre ferimentos graves e invisíveis, confunde um pássaro com fruto e prende as patas em um caule, corta as asas como se fossem gomos, esvazia a casa, arruína a fé, cria os piores fiascos, infantiliza os joelhos, devasta o certo e o errado, inventa lugares para se esconder, quebra as lentes dos óculos, expulsa amizades, prepara escândalos, esconjura atrasos. Ainda assim é melhor do que o tédio. Ninguém se agride pelo tédio, pois ele anula qualquer vontade. 

O amor é como o rio, não deixa de barulhar represado de pedras. Sofrer é pouco ao amor. As lágrimas nunca serão fartas como a saliva. A saliva é a lágrima da alegria.

5 comentários:

Keli Wolinger disse...

Leandro,

O amor nos torna prisioneiros ao ar livre. A grande arte de proteger nossas emoções, de pulsar vida dentro do peito. Seguir sem rumo só para achar o caminho perfeito.

Obrigada pela visita! Grande abraço,

Keli
http://anacronica-keli.blogspot.com

Gislãne disse...

" E todo grande amor só eh bem grande se for triste"

:)

Luzia Medeiros disse...

Já fui tão feliz, e tão triste. Já quis não sentir a tristeza e deixei, por isso tb de ser alegre. Desisti de ser covarde. Agora eu quero morrer de amor, quero sentir o prazer, a felicidade, e a dor, quero ser de alguém, quero ter alguém, quero viajar nos meus pensamentos, quero tornar o amor real, como na música do Nando Reis (Quem vai dizer tchau?) "Tornar um amor real é expulsa-lo de vc, para que ele possa ser de alguém", e agora, depois da devastação emcional, sinto-me segura de novo para novas tempestades. Sou intensa e plena, e a plenitude não é feita de beleza, o prazer esconde uma ponta de dor, e vale a pena ser vivido. E é um eterno ir e vir, ciclos que se fecham para outros que vem, e o amor, tão sabido e velho, vira novo. Adorei o texto, vc me fez repensar Carpinejar! Bjs

Shuzy disse...

Toda separação é um laço... Muita vezes até mais apertado que uma união...

Lindo blog!

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá, Leandro.

Aqui, conhecendo o seu espaço. Adorei tudo! Belos e reflexivos textos!

Amei isso: "Na mala, as roupas enfim se deitam, se amam, se roçam, sem a proteção e o biombo dos cabides."

Sigo-te.
Beijos